Estamos seguros na internet?

Por Gabriela Pires. Texto adaptado do original “Estamos seguros na internet?”, publicado na Newsletter Amarelo Gemada #07 

Desde que eu comecei a me aventurar com mais foco nas trilhas da programação e da tecnologia, eu não consigo ficar um dia sequer sem pensar ou ler alguma coisa relacionada. Eu ando sonhando, literalmente, com diferentes maneiras de escrever um código e com maneiras de resolver algum pepino usando programação. E isso é uma loucura, porque havia muito tempo que minha cabeça não ficava tão a mil com algo novo. Aliás, eu achei muito mágica e muito maluca a maneira como nosso cérebro começa a funcionar de maneira diferente. Quando lia sobre feitos de pessoas, até mesmo muito jovens, que usavam a tecnologia para resolver diversos problemas em suas comunidades,  eu só conseguia concebê-las à genialidade. Nunca imaginei que, na verdade, a programação nos demanda foco e dedicação muito maiores quando precisamos resolver problemas – que são inevitáveis, às vezes imprecisos e demandam muito tempo de pesquisa, meio que de uma maneira obsessiva para sua resolução. E isso se espalha para muitas atividades da vida. É claro que não estou me comparando a essas pessoas (até porque ainda continuo as achando gênias maravilhosas), mas fica mais fácil de entender o quanto essa dedicação adquirida pode nos beneficiar.

Essa leve mudança de pensamento me trouxe de volta uma preocupação que antes eu tinha apenas por ser “paranoica”. Hoje, ela retorna com mais embasamento e como um desejo de mudança de comportamento e de alinhamento com o que eu acredito ser uma postura mais segura na navegação pela internet e mais ética no consumo de softwares.

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 gif da zuêra – eu durante uma das aulas no curso Eu Programo

Quando comecei a usar o Gmail, e logo depois toda a gama de serviços que a Google oferece – mais tarde, passei também a ser usuária do Facebook -, eu aceitei abrir mão da minha privacidade na internet porque acreditava que os benefícios que esses serviços me traziam eram maiores e condizentes com o que as empresas pediam em troca na época. A Internet (com I maiúsculo) também me levava a um fluxo “cool” em que pessoas mais atualizadas e descoladas usavam e-mails com arrobas específicas e losers ainda usavam Hotmail e Yahoo. Sim, oito anos atrás, quando abri meu Gmail, eu tinha esse tipo de pensamento e confesso que, hoje, ainda olho com uma cara de deboche quando vejo algum endereço  @hotmail.com. Loser sou eu!

É claro que, comparando a qualidade de serviço, os serviços de e-mail que eu renegava naquela época são, sim, inferiores ao que uso hoje, mas queria eu ter tido essa clareza e maturidade ao buscar um serviço e não apenas para ir atrás do que “todo mundo” estava usando. Já diziam a minha, a sua, as nossas mães muito sábias: “se todo mundo se jogar no buraco, você também se joga?”.

Pode parecer engraçado, mas, se pararmos para pensar, ainda usamos essa mesma lógica para escolher a maioria das coisas que consumimos, inclusive serviços na internet e outros tipos de softwares. Usamos da popularidade da marca e, muitas vezes, da pressão social para aderirmos a alguma ferramenta. Por exemplo, o WhatsApp. Não preciso nem falar muita coisa,  mas só de pensar que há alguns meses o aplicativo não oferecia nem criptografia nas mensagens e, mesmo assim, em fevereiro de 2016, bateu 1 bilhão de usuários! Ou seja, mais ou menos 1/6 da população mundial que não detinha do direito básico de ter segurança e confidencialidade numa simples troca de mensagens.

Vou tentar não desviar muito do assunto, mas isso me leva a pensar também na força de uma marca. Se eu oferecesse a uma pessoa um aplicativo de troca de mensagens que, apesar de todas as suas funcionalidades, não oferecesse a garantia de que sua mensagem não seria interceptada e lida por mais ninguém além dela mesma e do seu destinatário (para colocar o menor dos riscos), duvido muito que ela aceitaria utilizar. Mas, se eu dissesse que esse aplicativo é o próprio WhatsApp, chuto que ela voltaria atrás e reconsideraria a escolha. Se “todo mundo” usa, que mal deve ter, não é mesmo?

É claro que aplicar a criptografia em um serviço depende de muitas variáveis, protocolos e padrões que devem ser conhecidos, atualizados e estar sob constante manutenção. Isso demanda um investimento financeiro gigantesco e, por esse motivo, nem todas as empresas optam por oferecer a segurança devida a seus usuários. O principal problema, a meu ver, é a falta de informação objetiva sobre as condições a que o usuário será submetido. Contratos e políticas de privacidade que não lemos por serem extensos, escritos em linguagem jurídica, jogos de palavras ambíguos e frases que não dizem absolutamente nada como “coletamos informações para melhorarmos a experiência de usuário”. Quais informações são coletadas? Por quem, como, quando e até onde vai a “experiência do usuário”?

Um dos motivos para eu optar por migrar por serviços mais seguros é essa coleta de informações desenfreada que empresas como a Google e o Facebook fazem, a maioria para reverter para publicidade direcionada. Esse tipo de publicidade não me atinge e eu gostaria de escolher o que ver ou não ver. Plugins como Adblock me caem muito bem, mas não é por isso que minha informação não deixa de ser coletada, compartilhada  e utilizada para outros propósitos dos quais eu não tenho a menor ideia. Sem contar a ética de empresas como Facebook, que dão outra edição inteira de tão esquisitos e absurdos que são.

Softwares Livres

Apesar dessas empresas dizerem que a criptografia está lá, a maioria de nós não têm conhecimento nem abertura para verificar se elas estão sendo usadas como deveriam. A maioria dos softwares mantêm os códigos fechados, principalmente para lucrar com venda de licenças, royalties ou, nos piores casos, para operar com nossas informações de maneiras que desconhecemos.

Uma ótima maneira de ter mais liberdade no consumo de aplicações é optar por softwares livres ou open source. Apesar do segundo conceito ser mais ouvido por aí, Free Software e Open Source (código fonte aberto) são dois movimentos que se interseccionam em alguns momentos, mas que têm algumas diferenças entre si. Esse artigo do site Infowester descreve os princípios dos dois movimentos e toda a sua história.

De maneira resumida, o movimento do Free Software defende que, além de utilizar, o usuário tem liberdade para copiar, modificar, distribuir e estudar o código do software para qualquer propósito, sem necessidade de justificativa ao desenvolvedor. Para isso, a Free Software Foundation criou 4 alicerces que todo software considerado livre deve seguir:

  1. Liberdade de executar o programa, para qualquer propósito.
  2. Liberdade de estudar como o programa funciona e adaptá-lo às suas necessidades.
  3. Liberdade de distribuir cópias de forma que você possa ajudar ao seu próximo.
  4. Liberdade de melhorar o programa e liberar os seus aperfeiçoamentos, de modo que toda a comunidade se beneficie.

Retirado de “O que é software livre”, de Augusto Campos

Para que essas liberdades sejam possíveis, o acesso ao código fonte é imprescindível, assim como o respeito aos preceitos filosóficos colocados pela FSF. É nesse ponto que entram as diferenças para o Open Source.

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Richard Stallman, fundador da FSF

Open Source

As diferenças entre Software Livre e Open Source são, na verdade, mais de caráter ideológico que pragmático. A FSF é um movimento social que condena as práticas de mercado e posicionamentos de desenvolvedores de softwares proprietários enquanto a Open Source Initiative se mostra mais flexível nessa questão. Grandes empresas de software proprietário, por exemplo, poderiam contribuir para a comunidade Open Source sem maiores problemas, desde que seus preceitos sejam respeitados. Todos os preceitos podem ser vistos neste link mas, se você perceber, ambos transitam por questões muito próximas, como a obrigatoriedade do acesso ao código fonte. A priori, em relação a licenças, todo software livre atende aos requisitos do open source mas, ideologicamente, o contrário nem sempre se aplica.

Para entender melhor, podemos analisar o caso da Adobe, uma gigante desenvolvedora de softwares proprietários, mas que mantém diversos repositórios no GitHub com projetos próprios – como o editor de código Brackets que, inclusive, abraça o slogan “built with the web, for the web” (“Construído com a web, para a web”) -, e contribuições diversas para a comunidade open source. Ao mesmo tempo, os seus principais softwares, como Photoshop e After Effects, além de estarem bem longe de seguirem o mesmo discurso, geram grande dependência dos seus usuários em relação a ferramentas e atualizações. Para a comunidade open source esse fato não é exatamente um problema mas, apesar de não poder afirmar categoricamente, acredito que essa prática seria condenada pela Free Software Initiative simplesmente pelo conflito ideológico que ela gera.

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Por que migrar

Acredito que cada pessoa deva ter seu motivo. Para mim é um pouco difícil falar sobre meus motivos pessoais, mas acima de tudo, neste momento, me parece o mais ético a se fazer. Esse desejo só vem para somar as outras mudanças de comportamento que ando tentando praticar como a diminuição drástica do consumo de produtos de origem de países ou de marcas que  promovem o trabalho escravo, o uso de tipografias e imagens que sejam adquiridas de maneira legal, a preferência por produtos do comércio local e uma série de outras coisas. Eu acredito que, assim, estou contribuindo para pequenas mas consistentes mudanças, e acho que a migração para softwares livres faz parte desse pacote.

Além disso, todas as questões como privacidade e segurança e falta de acesso às circunstâncias exatas em que elas serão utilizadas me preocupam muito. Contam ainda as lógicas de mercado bizarras e a dependência que criamos por alguns pacotes de softwares (eu, por exemplo com a Adobe). Sejamos sinceros, quase ninguém adquire softwares proprietários por meios legais. Então, eu me perguntei:  por que piratear um software se eu posso ter um equivalente tão bom quanto ou melhor seguindo fundamentos de liberdade com os quais eu concordo? Pirateando ou não, temos grande contribuição na manutenção da roda bizarra do capitalismo e de muitos dos seus abusos. Então, nada mais lógico para mim do que tentar contribuir cada vez mais, até onde for possível, para movimentos mais livres e éticos.

Como começar a migrar

Acho que o primeiro passo para a migração de softwares proprietários – sejam eles obtidos de maneira legal ou ilegal –  para softwares livres ou open source é a pesquisa e o planejamento. Eu ainda estou nesta fase e, para começar, resolvi fazer uma lista dos softwares que eu usava e procurar por substitutos open source ou livres. Ao contrário do que podemos pensar  – e do que eu mesma pensava – , a oferta de softwares livres não é baixa e de menor qualidade que softwares proprietários. Por isso, eu tive a linda e agradável surpresa de ter conseguido equivalências em quase tudo que uso no dia a dia. Os únicos que ficaram de fora foram alguns softwares do pacote Adobe, como Photoshop, Illustrator e Indesign, e mesmo para esses existem equivalências. Mas, por escolha própria, ainda não me sinto confortável em migrar por conta dos meu vícios em relação à lógica de funcionamento e ferramentas.

A primeira das minhas mudanças foi deixar de utilizar o Google como meu site de buscas principal e migrar para o DuckDuckGo, um serviço que promete  não rastrear suas buscas. Eu o escolhi principalmente por questões de privacidade. Voltei a utilizar o Firefox como navegador principal e o Chrome fica apenas para eventuais testes enquanto estiver desenvolvendo sites. Sobre o e-mail, ainda não decidi qual vou utilizar. Estou pesquisando um serviço de e-mail que seja criptografado ou devo optar por clientes de e-mail como Thunderbird (equivalente ao Outlook) e plugins de criptografia. Brevemente pretendo fechar essa conta atual do Google e o maior dos meus desejos é conseguir me livrar do Facebook de vez. Todas as minhas decisões se baseiam tanto nos preceitos de software livre e open source quanto na busca por maior privacidade na internet.

É importante considerar também um sistema operacional compatível com suas necessidades. Por enquanto, e só por enquanto,  eu ainda vou manter o Windows instalado na minha máquina, mas planejo migrar para alguma versão GNU/Linux. Existem várias versões que se adequam mais ou menos a necessidades específicas, por exemplo, para quem edita vídeos ou fotos. Então, novamente, o argumento de que não existem substitutos equivalentes à qualidade de softwares proprietários é bastante rasa.

Para finalizar queria deixar algumas indicações de onde começar a pesquisa básica sobre softwares livres e open source.

  • Esta transmissão da palestra sobre Softwares Livres e Cultura Hacker, ministrada em uma das oficinas do curso Eu-Progr{amo}, do Programaria, com a Camilla Gomes e a Haydee Svab.
  • Episódio 245 sobre segurança na internet do Anticast.
  • Este artigo do br-linux.org é bastante completo e fala sobre as diferenças entre os dois movimentos e mais alguns conceitos como o de copyleft e demais licenças.
  • Site com, onde dá pra encontrar várias equivalências livres e de código aberto para os principais softwares do dia a dia.
  • Site da Free Software Foundation. onde encontrar informações completas sobre o movimento e um diretório com softwares para todas as necessidades (a navegação é um pouco esquisita, mas vale a pena dar uma fuçada).
  • Site da Open Source Initiative, que dá resultados de softwares dessa categoria e mais informações sobre o movimento.
  • Site Alternative To, que faz uma busca por softwares similares. Não é exclusivo para open source/free software, mas dá a informação de quais resultados se incluem nessa categoria.
  • A Wikipedia também oferece artigos muito bacanas sobre ambos os movimentos e demais conceitos associados.

E você, já pensou em migrar para  softwares livres e de código aberto? Conta pra mim que eu vou ficar feliz em saber a sua opinião!

Muito obrigada e até a próxima!

 


Gabriela Pires é feminista negra, designer gráfica por formação, escritora por hobby e por necessidade e entusiasta de “quase qualquer coisa na vida”. A descoberta da vez é desenvolvimento web, programação e tecnologia, áreas que, por causa do projeto Programaria,  já conseguiram uma passagem só de ida para o fundo do seu coração <3

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