Co-fundadora de escola de liderança apresentou estratégias para superar sentimento de ser uma fraude

Aline Naoe

“Que blusa bonita!”. “Ah, é tão velha, comprei numa liquidação”. Não é um diálogo incomum entre mulheres. A situação é, a princípio, inofensiva e até cômica, mas já dá uma ideia da enorme dificuldade que temos em ouvir um elogio sem nos justificarmos. O comportamento se repete no ambiente profissional e alimenta o sentimento de não merecermos estar onde estamos e de que, a qualquer momento, podemos ser “desmascaradas”: a chamada síndrome do impostor. 

Saber receber elogios é justamente uma das estratégias para enfrentar esse fenômeno apresentadas pela co-fundadora do Programa ELAS, Amanda Gomes. “Reconhecer no que você é boa não é falta de humildade”, disse a especialista. Durante uma dinâmica, ela exercitou no público do Programaria Summit a capacidade de fazer e receber elogios e também de responder apenas “obrigada”.

Desenvolvedoras, em geral, trabalham em ambientes majoritariamente masculinos, uma realidade que acaba intensificando a sensação de não pertencer àquele lugar. É também a síndrome da impostora o que acaba fazendo muitas mulheres desistirem de aplicar a uma vaga ou negociar seu salário. 

“Meu chefe me ignora”, “ele acha que não sou competente”, “eles vão perceber que não sou boa o suficiente”, “nunca vou ser promovida” foram exemplos dados por Amanda do que ela chamada de alucinação – ou seja, não são fatos, mas impressões muitas vezes fantasiosas que acabam minando nossa confiança. Segundo ela, precisamos fazer perguntas inteligentes e assumir a responsabilidade por nossas carreiras em vez de “terceirizar” esta função, atribuindo a outras pessoas a razão de não atingirmos determinado objetivo. 

Para isso, ela dá a dica de encarar a vida como um jogo. É uma forma de se desvencilhar da posição de vítima, entender que já superamos várias fases, temos conquistas das quais nos orgulhar e de que talvez apenas ainda não percebemos qual a “sacadinha” para passar por determinado desafio.

Elas na liderança

Os treinamentos voltados à liderança feminina do Programa ELAS já foram dados em empresas como IBM, Bradesco e Facebook, buscando reduzir o gap de gênero nas organizações. Segundo uma pesquisa da consultoria Grant Thornton divulgada em 2018, 39% das empresas no Brasil não têm mulheres em cargos de liderança – esse número era de 53% no ano anterior.

Com mais de 20 anos de experiência no mundo corporativo, Amanda chamou a atenção para o fato de que lidamos mal com o poder. Assim como temos dificuldade em receber elogios, associando isso a falta de humildade e arrogância, criamos também uma relação ruim com o poder, algo quase demonizado, que não deve ser almejado pelas mulheres. 

Ela lembra que a síndrome da impostora atinge, inclusive, quem ocupa cargos de liderança, situação em que as mulheres se questionam com até mais intensidade se fazem jus à posição que lhes foi dada. Um dos desafios enfrentados por quem chegou no topo é o medo de parecer ambiciosa demais, além de terem, frequentemente, suas emoções questionadas.

“Dizem que somos muito emocionais e que devemos ser mais racionais, mas o que precisamos é sermos mais assertivas”, afirmou Amanda. Para ela, é preciso respeitar as emoções e canalizá-las para aquilo que se quer conquistar.