Entrevista com Mikaeri Ohana: “A Inteligência Artificial não possui a mesma sensibilidade e capacidade criativa de tirar novas conclusões em cima de dados existentes” - PrograMaria

Pessoas desenvolvedoras serão substituídas? Leia a entrevista com Mikaeri Ohana, cientista de dados que atua com Inteligência Artificial e Machine Learning, e a primeira mulher do Brasil nomeada Microsoft MVP na categoria Inteligência Artificial

A cientista de dados Mikaeri Ohana é apaixonada por Machine Learning e também por empoderar pessoas para a área de tecnologia. Ela também é Google Developer Expert em Machine Learning, e, além de trabalhar na CI&T, ela é community manager de comunidades como WoMakersCode e Developers-BR e apoiadora do AI BRASIL e Nerdzão. Nesta entrevista com ela, exploramos o tema da substituição do trabalho dev pela Inteligência Artificial:

1) Quando a gente fala em IA, sempre vem a questão da substituição da mão de obra por máquinas. Você enxerga esse fenômeno acontecendo também com a área de desenvolvimento? Como?

A Inteligência Artificial, por padrão, atua no dia a dia das pessoas com a participação em diversas tarefas que, de forma geral, envolvem algo mais mecânico e tendem à repetição. Acredito que a automação de tarefas rotineiras será realizada na maioria das profissões, e o desenvolvimento de software não está fora disso. Essa automatização, no entanto, visa utilizar-se de processos com um conjunto de padrões predefinidos, e não daqueles que exigem a criatividade e o pensamento complexo do todo.

Na área de desenvolvimento, como em qualquer outra, é possível de enxergar ambos os lados: padrões existentes e que se repetem e o lado criativo e experimental. Toda a codificação, a escrita de um programa, segue uma série de regras. Após um conjunto de instruções, identificado e organizado junto ao pensamento humano, se inicia o processo de criação de uma demanda de tecnologia.

Considerando que criar código não é o único papel de uma pessoa desenvolvedora de software, mas apenas uma de suas responsabilidades, não devemos considerar que haverá uma “substituição” devido a toda parte de análise e originalidade no pensar para o desenvolver que essa profissão exige; a análise do código na identificação de bugs existentes e capacidade de refatoração (considerando o padrão de desenvolvimento da empresa) ainda envolve muito o senso de criatividade e experiência.

2) Quais são as tarefas do trabalho dev que hoje já são substituídas máquinas? Tem áreas que são “mais substituíveis” que outras?

Áreas que possuem como maior parte de suas atribuições a execução de tarefas que se repetem e seguem um conjunto de regras com pouca ou nenhuma necessidade de alteração terão maior cobertura pela Inteligência Artificial.

No dia a dia da pessoa desenvolvedora, já existem sugestões de design para a criação de apresentações e dashboards sendo feitas através de algoritmos, auto preenchimento de códigos em interfaces de desenvolvimento feitos de acordo com o estilo de programação da pessoa e recomendação de nomes ao salvar arquivos e mensagens geradas de acordo com um texto base.

3) Outro aspecto da IA é e previsão de que as empresas vão começar a adotar IA para otimizar seus negócios, tornar sua operação mais eficiente. Isso deve impactar o trabalho do profissional de tecnologia?

A rotina da pessoa desenvolvedora exigirá que ela se posicione ainda mais em cima da tomada de decisão e do pensamento analítico. O “desenvolver código” terá que ser, cada vez mais, pensado como um meio, e não um fim. A capacidade de solucionar problemas precisará ser aflorada e o foco em criar soluções de impacto, pensando na tecnologia como ferramenta, será fundamental.

4) Tendo em vista esse panorama, qual deve ser a postura da pessoa desenvolvedora em relação a IA?

A pessoa desenvolvedora deve considerar a Inteligência Artificial uma ferramenta poderosa. Humanos possuem a capacidade de terem suas próprias percepções, em conjunto com as experiências vivenciadas, sobre um determinado fator. A Inteligência Artificial necessita de uma série de dados e não possui a mesma sensibilidade e capacidade criativa de tirar novas conclusões em cima de dados existentes. Ainda há muito pela frente, em termos de regulamentação, pesquisa e desenvolvimento, para falarmos sobre uma real substituição.

Considerando que há analistas responsáveis pela criação desses produtos de aprendizado de máquina, refletir sobre a ética desses algoritmos e explicabilidade de modelos é fundamental. Tendo em vista que nós, humanos, somos os desenvolvedores das aplicações e nós que adicionamos o dado que a alimenta, o preconceito desses modelos tem uma origem definida. É necessária a existência de um cuidado quanto à não-exclusão de qualquer parte da sociedade, pensando nela como um todo e tendo uma grande responsabilidade quanto à garantia de que o modelo performe igual para todes e que nenhum grupo seja excluído.

Além desse importantíssimo tópico, deve ser ressaltada a importância do exercício do lado criativo. Não foque apenas em hard skills, mas também desenvolva suas soft skills e habilidades do pensar como um todo. Seja original, pense fora da caixa e coloque sua criatividade em cada tarefa que for exercer.

Na técnica e a capacidade de organizar uma grande quantidade de informação em milésimos de segundo é sabido que a Inteligência Artificial possui vantagens, mas nós, seres humanos, temos nossa história – cada um de nós – e é isso que nos torna únicos.