“Computação não é um bicho de 7 cabeças! É pra todo mundo”

Um fim de semana para ter uma imersão no mundo da programação. É gratuito e não precisa ter nenhum pré-requisito! Essa é a proposta do Rails Girls, um evento organizado por voluntários que acontece em várias cidades do mundo todo. Em São Paulo, a Camila e Bárbara decidiram organizar uma edição no ano passado e deu tão certo que resolveram repetir a dose! Confira uma entrevista com elas:

1) Contem um pouco mais sobre vocês e quem mais organiza o evento!
Camila Campos, 24 anos, moro em SP, sou formada em Sistemas de Informação na EACH-USP e engenheira de software na BKF.

Bárbara Barbosa, 25 anos, moro em SP, faço mestrado de Sistemas de Informação na EACH-USP, e pesquiso processamento de linguagem natural. Trabalho como cientista de dados na BKF.

Além disso, contamos com o apoio de praticamente todos os guris do time de tecnologia do BankFacil, e também alguns amigos pessoais (o nome de todo mundo tá no nosso site).

2) Por que decidiram fazer o evento?
Camila: O motivo principal é a falta de mulheres na área TI. Quando eu e a Bárbara estávamos nos inscrevendo pra RubyConf, que aconteceu nos dias 18 e 19 de setembro de 2015, fomos ver que palestras teriam e quem palestraria. Na lista de palestrantes, tinham mais ou menos uns 60 a 65 palestrantes, sendo que só uma era guria. Achamos isso muito triste e começamos a conversar sobre o assunto. Eu comentei com ela que, durante meu intercambio, tinha ido na Grace Hopper Celebration of Women in Computing, que é uma conferência ENOOORME só pra mulheres em TI, que acontece todo ano nos EUA. E aí a Bárbara comentou do Rails Girls Summer Of Code, que é um projeto que ela participava, pra envolver gurias em projetos open source (mas ela pode explicar melhor disso). Ela comentou também que existia essa iniciativa do Rails Girls (RG), que existem guias no site oficial do RG e quem quiser levar pra própria cidade, é só tomar coragem, seguir os guias que são fornecidos e organizar o/ E foi isso que a gente fez! Deu dois minutos de coragem nas duas e resolvemos nos meter nessa, e desde então estamos correndo atrás de todos os detalhes pra que seja um evento bacana. Já organizamos ano passado e foi incrível, e esperamos que esse ano seja melhor ainda (:
Bárbara: Como a Camila falou, quando nos inscrevemos para a RubyConf nos começamos a discutir sobre isso, e eu comentei com ela do RailsGirls. Eu já conhecia a organização há um tempo e no começo do ano passado me inscrevi para o RailsGirls Summer of Code, um projeto do pessoal do RailsGirls que incentiva mulheres a participarem de projetos open source com uma bolsa de 3 meses. Quando me inscrevi fiquei um bom tempo procurando um time aqui em SP pra ser coach e nem no Brasil eu achei um. Na América Latina foram apenas 2 times inscritos em 2015, e grande parte das meninas inscritas de outros países se inscrevem graças ao RailsGirls. Acabei participando como coach de um time (o AlphaRuby) de Luxemburgo que tinha uma menina brasileira e uma indiana. Comentei com a Camila essas coisas e já nos inscrevemos pra sediar o RG em SP usando o BKF (BankFacil) como local ano passado. Esse ano, como queríamos aumentar um pouco o público, estamos organizando na Viva Real.
3) Quais são as maiores dificuldades?
Camila: Acho que tivemos algumas dificuldades por não ter experiência nenhuma em organizar um RailsGirls ou qualquer outro evento, mas as maiores foram relacionadas a patrocínio. Desde ter contatos de empresas para pedir que nos ajudem até estimar o custo do que precisávamos pra poder mandar pras empresas, passando também por decidir o que e quanto precisamos. A gente contou com a ajuda do pessoal que está organizando o Rails Girls em Porto Alegre, que já tem mais experiência com o RG que a gente, então ficou menos difícil. Mas mesmo assim, a gente ainda sofreu um pouco nessa parte. Inclusive, estavámos com uma vaquinha, pra garantir que desse tudo certo 😀 Deu tudo certo e até batemos a meta, que era pra conseguir o valor que a gente estimou pro almoço.
Esse ano foi muito mais fácil por termos mais experiência, mais contatos, e começarmos a organizar tudo um pouco mais cedo.
Bárbara: Os guias no site do RailsGirls são muito bons, mas ainda fica uma duvidazinha! Existem posts de como foram outros eventos em várias partes do mundo, mas é um pouco assustador organizar um evento só conhecendo o modelo. O pessoal de Porto Alegre ajudou muito e acredito que achar as pessoas que já fizeram ou estão organizando o evento em outros estados é a chave para sempre termos eventos bons e mais pessoas com coragem para trazer o evento para várias cidades. Além do patrocínio, como a Camila citou, o alto número de inscritas (174 ano passado e 287 esse ano) também nos surpreendeu! Ano passado, ficamos um tempo pensando se mudávamos o local e todos os orçamentos que realizamos ou continuávamos com o plano inicial de 40 participantes. Resolvemos continuar com o plano inicial e já planejar um evento maior pra esse ano \o/ Abrimos pra 60 participantes, mas, mais uma vez, o número de inscritas nos surpreendeu.
4) Como funciona o evento?
Camila: Ano passado foram 40 meninas participantes + 20 coaches que, em dois dias de evento (sexta-feira, a partir das 18h30~19h e sábado, o dia todo), criaram aplicações web. Organizamos times de 6 pessoas, compostos de 4 participantes e 2 coaches. Daí o que cada time vai fazer fica mais a critério do próprio time, com o coach ajudando no planejamento e execução do projetinho. Esse ano serão 60 participantes, com 30 coaches.
Na sexta o ~tema~ é “Instalation Party”. A a gente separa as gurias e os coaches em times, e a ideia principal do dia é que as gurias se conheçam (e conheçam os coaches), e já arrumem as máquinas delas pra chegar no sábado e só mandar ver!
O sábado é o dia do “Mãos a obra!”. Os times se juntam de manhã, definem o que vão fazer, e botam a mão na massa! É o dia todo de workshop, e antes ou depois dos intervalos pra comidinhas, temos algumas palestrinhas básicas e rápidas de TI, como git, ruby, métodos ágeis, mulheres na computação, APIs, etc.
Bárbara: A ideia é que as meninas possam colocar ideias que elas já têm em prática, ou usar algumas das ideias que vamos disponibilizar no dia do evento. Grande parte do que elas vão aprender vai depender dos coaches, podem ter mulheres que saiam sabendo mais de front-end, outras mais de back-end, design, etc. Tudo depende do que elas queiram apresentar no fim do segundo dia.
5) Muita gente acha que a programação parece um mundo muito distante da maioria das mulheres. Muitas consideram difícil, acham que não são capazes ou simplesmente não se identificam com a área. O que vocês pensam sobre isso?
Camila: Não sei de onde que surgiu essa coisa de áreas exatas terem maioria masculina, mas infelizmente, é assim que é atualmente. Tudo bem ser assim, mas o problema é que isso (entre outras coisas) muitas vezes acaba afastando mulheres dessas áreas. Agora, independente do motivo de ser assim, o objetivo do Rails Girls e de outros projetos similares (como o PyLadies ou o JS4Girls) é mostrar pra mulherada que computação não é um bicho de 7 cabeças e que é pra todo mundo, independente da identidade de gênero!
Bárbara: O intuito do Rails Girls é mostrar para todas as participantes que é possível criar coisas e colocar as ideias que elas tem prática. O Rails é um framework que ajuda bastante nessa tarefa e usar o google está 100% permitido! (Tanto para as participantes quanto para os coaches) Contudo, a ideia do evento é dar apenas o pontapé inicial e mostrar que programar é fácil e possível ver os resultados rápido. Continuar aprendendo e explorar novas áreas e linguagens é a lição de casa das participantes e eu acredito que o número de participantes do Rails Girls no Rails Girls Summer of Code está aí pra provar que elas se interessam e continuam estudando, só precisam de um empurrãozinho para entrar no mundo bonito da computação. *-*
6) Qual a importância de trazer mais mulheres para essa área?
Bárbara: Acredito que a área da computação é uma área que ainda tem muita carência de profissionais. Sem as mulheres, você está desconsiderando uma grande parte da população que é capaz de preencher essa área, mas que algumas vezes não acredita que consegue, ou tem receio de trabalhar um ambiente dominado por homens.

Camila: Como a Bárbara disse, primeiramente, quanto maior a quantidade de bons profissionais no mercado de tecnologia, melhor! Além disso, eu acho que quanto mais diversificado é um mercado, melhores soluções ele pode fornecer.
< polemica > Mas, a meu ver, o motivo mais importante pra trazer mulheres pra TI é que quase não tem mulher em TI. E muitas vezes isso acontece por puro preconceito do ambiente ): Quantas vezes não ouvimos comentários que menosprezam a capacidade da mulher como programadora ou somos recebidas com estranhamento quando dizemos que trabalhamos com programação? Ok que muitas vezes esses comentários vem em forma de brincadeira, mas eles acabam revelando uma realidade que, sim, afasta muita gente. Óbvio que isso não acontece sempre e nem com todo mundo, mas acontece. Enfim, a partir do momento em que não for mais “estranho” ter uma mulher em TI, aí eu vou ser feliz 😀 </ polemica >
7) Como foi o evento do ano passado? E o que esperam para esse ano?
Ano passado foi o máximo! Infelizmente, tivemos algumas pessoas que não puderam comparecer, mas no final do evento as participantes apresentaram aplicativos muito legais e um grupo até fez deploy no heroku! Uma das participantes ganhou um curso de Ruby na Campus Code e esperamos que esse ano ela possa participar como coach. Ela também quer seguir na área de computação gráfica. Uma das participantes resolveu fazer pós graduação na área de computação e uma outra participante, jornalista, está aos poucos migrando para a computação (e aprendendo outras linguagens de programação). Apesar de termos apenas algumas respostas das participantes, esses casos nos dão mais gás para continuar organizando o RailsGirls e apoiando outros eventos semelhantes.

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