Mulheres são consideradas melhores programadoras – mas apenas se elas escondem o seu gênero

Pesquisadores descobriram que, no GitHub, um repósitorio de softwares, os códigos escritos por mulheres são mais aprovados do que aqueles escritos por homens, mas apenas quando o gênero dos programadores não é divulgado.

Por Julia Carrie Wong. Originalmente publicado no The Guardian.

Quando um grupo de estudantes de ciências da computação decidiu estudar a maneira como o preconceito de gênero atua nas comunidades de desenvolvimento de software, eles supuseram que os programadores seriam preconceituosos contra os códigos escritos por mulheres.

Afinal, as mulheres fazem parte de uma porcentagem muito pequena dos desenvolvedores de software – elas são 11,2%, de acordo com uma pesquisa de 2013 – e a presença do sexismo em todos os lugares na indústria de tecnologia, dominada pelos homens, vem sendo bem documentada.

Os pesquisadores estudantes se surpreenderam quando a hipótese deles se provou falsa: os códigos escritos por mulheres, na verdade, tinham mais chances de serem aprovados pelos seus pares do que códigos escritos por homens. Mas a história não acabava aí: isso só acontecia quando as pessoas não se davam conta de que o código havia sido escrito por uma mulher.

“Nossos resultados sugerem que, apesar das mulheres no GitHub sejam mais competentes de maneira geral, o preconceito contra elas existe mesmo assim”, escreveram os autores do estudo.
Os pesquisadores, que publicaram suas descobertas no início desta semana, investigaram o comportamento de desenvolvedores de software no GitHub, uma das maiores comunidades de código open-source no mundo.

Localizado em São Francisco, GitHub é um repositório gigante de código utilizado por mais de 12 milhões de pessoas. Os desenvolvedores podem colaborar em projetos, inspecionar o trabalho dos outros e sugerir melhorias ou soluções para problemas. Quando um desenvolvedor escreve um código para o projeto de outra pessoa, recebe o nome de “pull request”. O dono do código pode, então, decidir se aceita ou não o código proposto.

Os pesquisadores observaram, aproximadamente, três milhões de pull requests no GitHub e descobriram que os códigos escritos por mulheres tinham uma maior taxa de aceitação ( 78,6%) do que dos homens (74,6%).

Na busca por uma explicação para essa disparidade, os pesquisadores examinaram diferentes fatores, por exemplo, se as mulheres estavam fazendo pequenas alterações no código (não estavam) ou se as mulheres estavam se saindo melhor do que os homens somente em certos tipos de códigos (também não estavam).

“A taxa de aceitação das mulheres foi superior a dos homens para cada linguagem de programação no top 10, em vários níveis”, descobriram os pesquisadores.

Os pesquisadores investigaram se as mulheres poderiam estar se beneficiando de um preconceito reverso – o desejo dos desenvolvedores de promover o trabalho das mulheres em uma área em que elas são minoria. Para encontrar a resposta, os autores separaram as mulheres cujos perfis deixavam bem claro que elas eram mulheres e aquelas cujo perfil não mostrava o gênero.

Foi aí que eles fizeram uma descoberta perturbadora: o trabalho das mulheres tinha mais chance de ser aceito do que o dos homens apenas quando o gênero não era identificável. Se fosse, a taxa de aceitação era pior do que a dos homens.

Entrevistas com várias desenvolvedoras que usam o GitHub revelaram um cenário complicado no que diz respeito ao preconceito de gênero dentro do mundo do código open-source.

Lorna Jane Mitchell, uma desenvolvedora de software que trabalha quase inteiramente com GitHub, diz que é impossível saber se um pull request foi ignorado por preconceito, ou simplesmente porque o dono do repositório está ocupado ou deu preferência a um desenvolvedor que ele conhece pessoalmente.

Em seu perfil, ela é claramente identificada como uma mulher, algo que não mudará por causa dos resultados da pesquisa.

“Eu ponderei se era inteligente ter um perfil que deixasse meu gênero óbvio e, para mim , ser identificada como mulher é muito importante”, disse Lorna por e-mail. “Eu quero que as pessoas percebam que as minorias existem, sim. E eu quero que as pessoas que fazem parte de minorias vejam que não estão sozinhas, apesar de, certas vezes, parecer que estão.”

Outra desenvolvedora, Isabel Drost-Fromm, que tem uma personagem feminina de desenho animado como foto de avatar, diz que nunca passou por preconceito enquanto trabalhava no GitHub, mas ela normalmente usa o site para trabalhar em projetos com times que já conhecem seu trabalho.

Jenny Bryan, uma professora de estatística da University of British Columbia, em Vancouver, no Canadá, usa o GitHub para desenvolver e ensinar em R, uma linguagem de programação. O perfil dela deixa claro que ela é uma mulher e ela não acredita que seja discriminada por causa do seu gênero. “No máximo, homens que não me conhecem, às vezes, tentam me explicar coisas que eu provavelmente sei mais do que eles”, conta. “Os homens com quem eu interajo na comunidade R me conhecem e, se meu gênero os afeta de alguma forma, eu percebo que eles se empenham para apoiar os meus esforços de aprender e contribuir mais.”

Jenny estava mais preocupada com a escassez de mulheres usando GitHub do que com o resultado desse estudo. “Onde estão as mulheres?”, pergunta. Uma possibilidade que ela levanta é a abertura da comunidade open source.

“No mundo open source, ninguém é pago para gerenciar a comunidade”, escreve.” Por isso, ninguém está pensando se a comunidade está (ou não) funcionando bem.“

Essa é uma pergunta sufocante para o próprio GitHub, que vem enfrentando sérias acusações de sexismo que levaram à renúncia do co-fundador e CEO Tom Preston-Werner, em 2014. O GitHub não respondeu a um pedido para que comentasse o estudo.

Em 2013, o GitHub colocou um tapete em sua sede que dizia “United Meritocracy of GitHub” (Meritocracia Unida de GitHub, em tradução livre). O tapete foi removido em 2014 após crítica de feministas que diziam que, apesar da meritocracia ser uma virtude dificil de discordar a princípio, ela não ajuda muito quando se fala em diversidade no ambiente de trabalho. Em resposta, o CEO Chris Wanstrath twittou: “Nós pensávamos que meritocracia seria uma maneira bacana de pensar o trabalho open source, mas agora conseguimos ver os problemas que isso causa. Palavras são importantes. Nós estamos comprando um novo tapete.
Os pesquisadores do pull request escreveram: “A frequente afirmação de que open source é uma pura meritocracia deve ser repensada”.


Tradução: Alexandra Silva, Mestranda em Ciência da Computação na UFMG
Cientista da computação curiosa e que considera tecnologia, seus desdobramentos e evoluções geniais! I fucking LOVE technology! Sou gastronôma também, curto cozinhar delícias, sejam japonesas, brasileiras, italianas…
E-mail: alesilva241@gmail.com

Comentários

2 comentários

  • Amei este site, também enfrento problemas por ser mulher numa área dominada por homens, já fui humilhada e até já riram na minha cara quando me candidatei a uma vaga na área de redes de computadores. Encontrar este site foi uma das melhores coisas que aconteceram comigo.

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