Você já negociou o seu salário hoje?

A comunicação não-violenta pode ajudar a expor opiniões sem medo, criar diálogos efetivos e reivindicar reconhecimento frente a pessoas que pensam diferente 

Stephanie Kim Abe/PrograMaria

Você alguma vez já foi à mesa do(a) chefe pedir um aumento ou reivindicar um reconhecimento pelo bom trabalho que você faz? Já teve que lidar com colegas de trabalho que discordavam de você em um assunto e se mostravam zero dispostos(as) a conversar? Com certeza você já passou por essas situações, ou conhece alguém que já.

Há quem diga que a melhor maneira de lidar com elas é ignorando-as, deixando-as pra lá. Mafoane Odara pensa diferente: “na vida prática, a gente tem dificuldade de lidar com esses conflitos. Mas o conflito não foge da gente, e quando ele vem, vem de forma violenta”. Gerente do Instituto Avon e psicóloga e mestre em Psicologia do Departamento de Psicologia Social da Universidade de São Paulo, Mafoane palestrou no Programaria Summit 2019, que aconteceu no último sábado (07 de setembro), em São Paulo. 

Além de reconhecer que eles são inevitáveis, é preciso entender que esses conflitos com os quais nos deparamos no dia a dia não refletem necessariamente uma postura errada da nossa parte. “O fato de uma pessoa falar de forma agressiva tem mais a ver com ela mesma do que com você. Porque é a forma que ela encontrou de se expressar”, explica Mafoane. É, portanto, a falta de diálogo que gera esses conflitos – e a forma como nos posicionamos diante deles pode ser determinante para o nosso crescimento profissional e pessoal. 

Conflitos x comunicação 

Como você se posiciona diante desses conflitos e problemas que surgem no dia a dia? Qual postura você assume quando percebe, por exemplo, que há um erro no código em que está trabalhando? “Quando o homem erra, a primeira coisa que ele pensa é: ‘qual o problema do código, que não tá rodando?’. Já nós, mulheres, pensamos ‘O que foi que eu errei?’”, argumenta a psicóloga. 

Essa diferença de atitude mostra como as mulheres ainda sofrem em reconhecer o seu próprio potencial: “temos muita dificuldade de assumir no que somos muito boas”. Ao não assumi-lo, nos privamos de certas conquistas que só conseguimos quando nos propomos a tentar e a comunicar a nossa opinião e o nosso posicionamento sobre determinado assunto. No ambiente de trabalho, isso pode ser fatal para o seu próprio crescimento profissional.

“Por que as mulheres ganham menos?”, questiona Mafoane. “Elas não entram em um novo emprego ganhando menos. Ao longo da trajetória profissional elas passam a ganhar menos. Porque negociam mal, e portanto pedem menos. Na nossa cultura, as mulheres não aprendem a negociar como os homens aprendem”, finaliza. 

Como fazer conversas difíceis

A negociação requer uma comunicação efetiva que vai além de apenas saber se posicionar. Pelo contrário, um diálogo é mais um processo de escuta que uma competição. Nesse sentido, a comunicação não-violenta é uma ferramenta importante que pode nos ajudar a enfrentar – melhor dizendo, evitar esses conflitos, garantindo um diálogo efetivo. Para isso, precisamos:

  1. Reconhecer quais são as nossas habilidades, de forma a compreender as nossas fraquezas e entender o seu momento de se colocar em uma conversa difícil. “Não precisamos estar 100% sempre, e é preciso saber os nossos limites e quando estamos de fato preparadas para ouvir genuinamente o que a outra pessoa está falando”, sugere Mafoane.
  2. Garantir que a mensagem que você está passando é exatamente aquela que o(a) seu(sua) interlocutor(a) está entendendo. Para isso, vale buscar ativamente conversar com pessoas que têm pensamentos diferentes do seu: “O diálogo só é possível quando as duas pessoas estão genuinamente abertas a ouvir o que a outra pessoa tem a dizer. Se a gente não conversa com quem é diferente a gente não tem nem a possibilidade de se comunicar naqueles momentos críticos”, diz.
  3. Encontrar o “mínimo denominador comum” entre os(as) interlocutores(as), fazendo com que a conversa avance. Fazer as perguntas certas, em um processo de construção conjunta de consensos, e incluir todas as pessoas interessadas/envolvidas é essencial para que isso aconteça.

Mais do que um grande aprendizado –  de escuta, de troca, de empatia -, colocar-se aberto ao diálogo com o diferente tem um certo efeito em cadeia que resulta em um ambiente mais aberto e inclusivo. “A conversa e o diálogo são mais uma cerimônia do que uma partida de tênis. E isso às vezes é muito difícil pra gente. Quando você conversa com outras pessoas que pensam muito diferente de você, as pessoas ao seu redor começam a fazer a mesma coisa. E isso dá uma certa leveza, pois ajuda a aliviar essa necessidade que temos de fazer tudo perfeito”, explica Mafoane.

Crédito: Estúdio Voii/PrograMaria

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