Somos mesmo livres na internet? - PrograMaria

Por Gabriela Pires

Meu pai foi o jovem descolado dos anos 1970 que usava calça boca de sino, cabelo blackpower e era apaixonado por carro. Ele começou a trabalhar cedo então, assim que juntou um dinheiro, tirou a carta de motorista e comprou um fusca marrom. Mais ou menos, nesta mesma época, a ARPANET já tinha surgido e se configurava como uma possibilidade de comunicação revolucionária por ter possibilitado que uma mensagem fosse enviada de um computador à outro.

Em 1986 nascia em São Paulo mais uma criança preta filha de migrante nordestino. Sim, eu mesma!
E, mais ou menos três anos mais tarde, Sir Tim Berners-Lee, desenvolvedor do HTML, apresentava o conceito de World Wide Web, a estrutura de acesso e navegação que propiciou a ampliação e popularização da Internet.

Meu pai é eletricista e trabalhou com construção civil a vida toda. Por isso, antes mesmo da Web ter sido colocada no mundo, minha família e eu — ainda com dois anos de idade — estávamos nos mudando de um quarto e cozinha nos fundos da casa da minha avó, para uma casa ainda inacabada num bairro minúsculo que faz parte do distrito do Grajaú, extremo sul da cidade.

Desde que me conheço por gente, estávamos em trânsito. Da minha primeira infância até a adolescência a gente andava no fusca marrom indo e voltando, todos os dias, os 25km entre Vila Campestre e Jardim Santa Fé. Além do trabalho do meu pai, minha mãe foi funcionária pública por toda a sua vida profissional. Apesar do cansaço e das dificuldades, esta convergência de acontecimentos nos proporcionou acessar muitos direitos.

Por isso, lá por volta de 1999, meus pais conseguiram comprar o primeiro computador: um PC com processador Intel Celeron e Windows 98. Desde o Windows 95, o navegador Internet Explorer passou a vir pré – instalado no sistema operacional. Nos Estados Unidos, este fato contribuiu e facilitou muito a comercialização e o acesso à internet pela população em geral, que passou a ser entregue via provedoras de Internet como a AOL, por exemplo. Por lá, iniciou-se um movimento de centralização, quando grandes provedoras passaram a oferecer serviços casados com telefone e TV a cabo. Isso impactou de tal maneira o mercado, que provedoras menores que ofereciam apenas o acesso à internet, acabaram fechando as portas.

Aqui no Brasil, por um tempo foi bem pouco diferente. Por muito tempo, telefone era um luxo para poucas pessoas. No meu bairro, a associação de moradores ainda lutava pela instalação de asfalto nas ruas. Quando a internet finalmente chegou, veio em forma de conexão dial-up e cobrada por pulsos telefônicos.

Em casa, a gente colecionava os CD’s das provedoras que chegavam pelos correios em forma de discadores e horas grátis de navegação. Era toda uma manobra pra conseguir fazer os trabalhos escolares, conversar pelo ICQ ou pesquisar alguma coisa sem gastar horrores ou ocupar a linha telefônica por muito tempo. Então, grande parte do meu tempo no computador era gasta brincando no Paint, jogando paciência ou olhando pro MS FrontPage tentando entender como eu fazia aquilo funcionar.

Em 2004, quando o bug do milênio já tinha passado e a humanidade estava a salvo(! ) eu, que sempre gostei de escrever, já tinha trocado de blog umas 300 vezes. A onda era testar diferentes serviços e ver quais tinham maiores recursos de customização de layout, ou um domínio mais atrativo. Sem muita pretensão, comecei a estudar um pouco de HTML para inserir elementos, mexer nas cores ou fonte do site, tudo a base de escolhas estéticas um tanto duvidosas.
Mas, a sensação de ter um lugar para mexer, mais ou menos a vontade, e compartilhar com pessoas queridas era bastante única. A falta de audiência era a menor das questões. Não à toa, no futuro eu escolhi ser designer. Fazer o quê. ¯\_(ツ)_/¯

Em 2004 também, o Orkut chegou. Mas talvez só em 2005 eu tenha feito uma conta.
Dá pra dizer que uma pequena revolução aconteceu no Brasil, já que em quatro anos a plataforma acumulou um total de 30 milhões de usuários. Isso numa época que ainda mal a internet chegava na casa das pessoas. O Orkut era galeria de fotos, blog, fórum e chat tudo ao mesmo tempo, em um só lugar. Era a primeira vez que nos deparávamos com o conceito de rede social.

Os anos foram passando, a Internet se tornou parte indissociável da vida de muita gente e a própria ideia de redes sociais mudou. Bem, e é aqui que a coisa fica um pouco séria. O que antes era um espaço centrado nas pessoas usuárias, atualmente é espaço de disputa de poder.

Os recursos primários das redes sociais foram sendo deslocados do seu propósito de socialização e, aos poucos, se tornaram vitrine para as mais diversas empresas e espaço de consumo de conteúdo, por mídias oficiais ou não. A coleta de dados massivos das pessoas usuárias tornou-se padrão ao aceitar os termos de uso destes serviços. Muitas dessas plataforma são fechadas a tal ponto de não serem indexadas por serviços de busca ou por impedirem o acesso a quem não estiver logado.

Para as pessoas nascidas pós redes sociais, a própria ideia de Internet é baseada neste conceito fortemente centralizado. Os serviços que usamos com mais frequência, sejam redes sociais, sistemas operacionais ou ferramentas diversas, são geridos por grandes empresas que têm poder de acesso direto aos nossos dados de cadastro, navegação e interação, para citar alguns.

Isso significa que além das nossas informações, o capital, a força de trabalho e tecnologias utilizadas — levando em consideração que pouquíssimas dessas soluções funcionam sob as ideias de software livre ou open source — por milhões de pessoas ao redor do mundo, são administrados e controlados seguindo interesses de apenas alguns poucos indivíduos.

Pode não parecer mas, todo conteúdo que consumimos por meio das redes sociais e empresas privadas de tecnologia é escolhido meticulosamente. “Os Algoritmos” — que muito nos assombram, como se fossem uma grande entidade exterior e poderosa — nada mais são que decisões humanas mascaradas sob um discurso falacioso de autonomia. Dentro destes espaços fechados, somos levados a acreditar que temos poder de escolha sob o que consumimos mas, a cada dia nos deparamos com um novo escândalo ligado a manipulação de nossos dados em benefício à empresas e indivíduos poderosos. Quando estas decisões de código são tomadas com base numa visão normativa de mundo e aquém da noção de liberdade, elas apenas refletem o status quo.

Em 2016, passados trinta anos do meu nascimento — quando participei da primeira turma do Eu Programo — eu escrevi um texto sobre software livre e open-source que foi replicado no site da Programaria. O texto falava, essencialmente, sobre minha pesquisa pessoal por aplicações que se encaixavam nesta categoria e sobre minha tentativa de me livrar de alguns destes serviços de grandes corporações. Desde lá eu venho tentando estudar cada vez mais, fazer melhores escolhas e compartilhar o que aprendi sobre FLOSS com o máximo de pessoas possíveis.

Muitas se interessam mas, uma grande parte não compreende muito bem por que eu escolho utilizar serviços que, muitas vezes, estão em fases de desenvolvimento anteriores que a de softwares proprietários mais consolidados. Afinal, pesquisar, migrar, testar e enviar feedback às pessoas desenvolvedoras dá bastante trabalho. É pra ser “diferentona”?

Eu refiz aqui a minha cronologia exatamente para responder a isso. Acontece que eu sempre fui “diferente”, não por que escolhi ser mas por que, desde que nasci, fui designada a certos papéis. Por isso, toda a minha trajetória foi e continua sendo baseada na busca por liberdade. Minha condição pessoal, social e histórica, sempre em trânsito como o fusca marrom de meu pai, não poderia ter me levado a lugares diferentes. Eu quero ter o poder de escolher quem sou realmente. Sem ter minha visão confundida por interesses escusos. Quero poder ter acesso e controlar o que eu produzo. Com o máximo de ética possível. Quero poder usufruir de ferramentas que facilitem a minha vida e quero que estas ferramentas sejam acessíveis a todas as pessoas, principalmente as que não atendem à norma.

Qual a chance de termos ideias realmente inovadoras, que estejam em sintonia com as necessidades da absurda diversidade do mundo, se eu posso contar nos dedos de uma mão o número de empresas que nos fazem acreditar que a Internet é esse pequeno punhado de serviços que vêm pré-instalados nos nossos dispositivos?

Só podemos realmente poder escolher e praticar a liberdade na Internet se estivermos abertos a questionar os serviços que usamos e a compreender o que está por trás “dos algoritmos”. Pode dar trabalho sim mas, infelizmente, quase tudo é trabalhoso para as vozes dissidentes. O mundo já não facilita para nós então, que tomemos à frente da (re)descentralização da Internet e da retomada da nossa autonomia.

Gabriela Pires é designer, desenvolvedora e tutora da PrograMaria. Siga-a nas redes:

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